Novo Athletiba ou zebra? Confira vezes em que os times do interior desbancaram os da capital e chegaram à final do Paranaense

Estão definidos os confrontos das semifinais do Campeonato Paranaense de 2020. Os tradicionais Coritiba e Athletico garantiram a vaga nessa quinta-feira e irão enfrentar os representantes do interior Cianorte e FC Cascavel (respectivamente).

Nessa 106ª edição do campeonato, é natural que se aposte em uma nova decisão envolvendo o clássico Athletiba, afinal, das 105 edições anteriores, 24 foram decididas entre rubro-negros e alviverdes. Equilíbrio: 13 títulos do Coxa contra 11 do Furacão. O número teve crescente especialmente no Século XXI, quando 11 das 20 edições terminaram com os dois entre campeão e vice.

O Campeonato Paranaense, em seus primórdios, costumava ser altamente equilibrado. Várias equipes carimbaram seus nomes no pódio – muitas delas extintas – Colorado, Pinheiros, Ferroviário, Britânia, Água Verde, Palestra Itália pela capital (todos componentes de fusões que culminaram no Paraná Clube), Nova Rússia, Guarani, Seleto, Cambaraense, Jacarezinho pelo interior, entre vários outros. Ainda assim, o peso para a divisão Ahletico-Coritiba é enorme.

Para tornar o número mais expressivo, o 1º e/ou 2º lugares do Campeonato ficaram 80 vezes com o Coxa e/ou Furacão (78 como Athletico, 80 se contarmos Internacional e América-Paraná, originários do Athletico, que foram finalistas uma vez cada). Ou seja, apenas 25 (23%) das finais estaduais não tiveram a presença dos dois.

Na maioria dessas vezes, quem assumiu o protagonismo foi o “Paraná Clube” – o próprio ou antigas agremiações das quais o Tricolor deriva –; não raro os clubes interioranos chegam à final, mas em boa parte são parados por uma equipe da capital. Das 105 edições, em apenas 13 a taça foi levantada por equipes do interior.

Numa filtragem ainda maior, das 13 vezes que o interior chegou ao título, 7 foram em cima de adversários também do interior. Nesse ano, Cianorte e FC Cascavel são as esperanças de que as equipes fora da capital possam surpreender. Para isso, vão para campo nos próximos fim e meio de semana contra os gigantes do estado.

Por enquanto, vamos relembrar as vezes em que o interior desbancou os clubes da capital e chegaram à final estadual:

1961 – Comercial x Operário: o futebol do interior precisou aguardar 47 edições do Paranaense para marcar o pódio – isso porque o terceiro colocado foi o Jacarezinho, da cidade homônima.

Mas não houve final. Na ocasião, o regulamento previa divisão macrorregional – Zona Norte Novo, Zona Sul e Zona Norte Velho. Cada uma teria um campeão, que vieram a ser exatamente Comercial, Operário e Jacarezinho. Ao Comercial, de Cornélio Procópio, foi dado o título por ter melhor campanha que os outros dois.

A segunda melhor campanha ficou com o Operário, o Fantasma de Ponta Grossa, que chegaria a seu título longos 54 anos depois, sobre o Coritiba. Hoje, contudo, tornou se campeão até nacional, das Séries D e C, e disputa a Série B nacional. Já o Comercial, por sua vez, sumiu do cenário estadual, e o povo procopense é atualmente representado pelo PSTC, que disputou a primeira divisão esse ano – e acabou rebaixado.

1964 – Grêmio Maringá x Seleto: o período de 1961 a 1964 foi marcado por uma bela sequência do interior. Depois do Comercial, Londrina e Grêmio Maringá bateram Coritiba e Ferroviário para ficarem com o título. Em 64, novamente o tradicional clube de Maringá poria as mãos na taça, dessa vez contra o Seleto, de Paranaguá.

Dessa vez sim, houve final, a primeira oficial entre clubes fora da capital. O interior demoraria outros 13 anos pra voltar a vencer o título, novamente com o Grêmio Maringá, contra o Coritiba.

O Seleto hoje vive na memória do povo parnanguara, ao contrário de seu rival Rio Branco, que se mantém firme na elite estadual. O Grêmio Maringá, após a queda e extinção de 2004 e reativação de 2010, nunca mais alcançou um bom lugar no futebol do Paraná. Hoje, considera-se que foi “substituído” pelo Maringá FC, clube com curtos 10 anos de história.

*1980 – Cascavel/Colorado x Londrina: essa é uma história inusitada. Sim, o campeonato de 1980 teve dois campeões. A decisão foi feita em um quadrangular final entre Cascavel, Colorado, Londrina e Pinheiros, e o jogo que decidiria o título foi na Vila Capanema, campo do Colorado.

Beneficiado por um saldo de gols expressivo, o Cascavel teria de perder por uma diferença de 5 gols para que o título ficasse nas mãos do Colorado. Porém, a Serpente perdia por 2 a 0 e ficou com apenas seis jogadores – dois expulsos e três lesionados. Temendo a possibilidade de sofrer mais gols e perder a taça, a equipe do oeste do estado começou a fingir lesões, a popular ‘catimba’, para ganhar tempo, o que, claro, revoltou o Colorado.

A partida foi interrompida logo no início do segundo tempo e ficou sob decisão da Federação Estadual, que inusitadamente declarou as duas equipes como campeãs!

O Londrina, que tinha a segunda melhor campanha naquele quadrangular, ficou com o vice-campeonato oficial.

Controverso, este acabou sendo o único título estadual do Colorado, que sabidamente, ao final daquela década, se juntaria com o Pinheiros, e formariam o Paraná Clube – que usa o vermelho de um e o azul do outro.

Já o Cascavel da época passa longe deste que está disputando as semifinais de 2020, em que pesem as semelhanças de cores oficiais (preto e amarelo) e de mascote (serpente). O Cascavel Esporte Clube foi o principal dos vários ‘cascavéis’ que a cidade teve. 1980, o ano do título, foi marcado também pela mudança de cores do clube, que saiu do vermelho e azul para o aurinegro.

Em 2001, se juntou com outra equipe da cidade, o Cascavel S/A, erguendo o Cascavel CR – que veste azul e vermelho, cores originais do ‘antigo Cascavel E.C.’. Este foi o único clube a representar verdadeiramente a cidade, até o nascimento do FC Cascavel, esse sim, o que está disputando a semifinais deste ano. Ufa! É muito Cascavel, hein?

Curiosamente, a partida entre os dois clubes da cidade, o Cascavel CR e o FC Cascavel, é chamada de ‘Clássico do Veneno’. Nesse ano, o veneno da serpente do FC Cascavel foi mais letal: 3×0.

1981 – Londrina x Grêmio Maringá: segunda final seguida entre clubes do interior, ao contar a estranhíssima do ano anterior. Dessa vez, incontestável. ‘Clássico do Café’, em homenagem à produção cafeicultora da região, terminou com o Tubarão campeão pra cima do Galo.

Vencendo as duas partidas, o ‘Tuba’ chegou ao seu segundo título estadual. Parte do belo esquadrão que havia acabado de ser campeão da Taça de Prata do Campeonato Brasileiro, o equivalente à Série B, em 1980. Sem contar o honrosíssimo 4º lugar no Brasileiro de 1977.

O Grêmio Maringá também tem sua história no cenário nacional. Em 1969, tornou-se campeão do Torneio dos Campeões da CBD, que tinha como propósito decidir o representante brasileiro na Libertadores 1970. Porém, a confederação desistiu de enviar brasileiros para a competição sul-americana, fazendo com que o Botafogo desistisse de disputar a final, que seria contra o clube paranaense. O Galo ficou com a taça por conseguinte, mas sem disputa da Libertadores.

1992 – Londrina x União Bandeirante: na década dominada quase por inteiro pelo emergente Paraná, coube um espaço para a final interiorana dos anos 90.

Levando a melhor na decisão de três jogos, o Tubarão chegou ao terceiro título estadual na história, contra a equipe da cidade de Bandeirante, que foi vice-campeã pela quinta vez, sem nunca chegar ao título.

A União encerrou suas atividades em 2006.

*2002 – Iraty x Grêmio Maringá: outra ‘final’ que precisa de uma breve explicação. Em turno e returno, oito equipes disputavam o título. O Iraty, com 10 vitórias, 2 empates e 2 derrotas, foi campeão com propriedade. Grêmio Maringá, Londrina e Prudentópolis fecharam o G4.

Surpresa? Na verdade, não. É que o Campeonato de 2002 não contou com os quatro primeiros colocados da edição anterior (Athletico, Paraná, Coritiba e Malutrom), que disputavam a Copa Sul-Minas.

O Iraty foi declarado oficialmente campeão de 2002, mas viria a ser realizado o Supercampeonato Paranaense logo em sequência, juntando as quatro equipes da Sul-Minas com as quatro primeiras equipes do estadual. Dessa vez, o Iraty conseguiu ficar apenas com o quarto lugar.

O Iraty segue ativo, disputando a terceira divisão do futebol paranaense. Já o Grêmio Maringá viria a fechar as portas dois anos depois, em 2004. Um grupo relacionado ao Grêmio resolveu fundar, junto à ADAP, o Galo Maringá, que não emplacou. Em 2010, o Grêmio Maringá chegou a reativar, como dissemos, timidamente. A cidade deve abraçar o Maringá FC.

2014 – Londrina x Maringá: a mais recente final do interior trouxe o ‘novo’ clássico do Café. O Maringá FC surgiu em 2010 e quatro anos depois já empolgava a cidade, claramente abatida pela dissolução do Grêmio.

A exemplo do que Cianorte e FC Cascavel podem fazer esse ano, Maringá e Londrina deixaram Coritiba e Athletico pelo caminho nas semifinais.

O Tubarão chegou à final após conseguir uma bela virada na fase anterior sobre o Athetico. Após perder por 3 a 1 na Arena da Baixada, venceu por 4 a 1 no Estádio do Café. Já o Maringá fez valer a força da torcida para bater o Coxa. Na volta, no Couto Pereira, conseguiu segurar o empate.

Após dois empates, a grande final foi decidida nos pênaltis. O Londrina levantou o caneco sobre o “novo-velho” rival em pleno Willie Davids.

Agora vocês puderam conhecer todas as finais disputadas por clubes do interior do Paraná. Sabemos que tratam-se de exceções, mas são exatamente essas que tornam o futebol tão rico em histórias.

O Campeonato Paranaense, a exemplo de todos os estaduais, traz capítulos inigualavelmente carismáticos para os pesquisadores e entusiastas. Clubes que vão e vêm, de todas as cidades, regulamentos diferenciados, fatos inusitados.

Documentar a história é mantê-la viva, sabendo que cada edição conta uma história particular diferente. Qual será a desse ano? Os dois gigantes chegarão à decisão, apenas um deles, ou teremos outra a engrossar a ainda modesta lista de finais do interior?

Nassif
Jornalista formado em 2016 pela FIAM-FAAM. Teve passagens pela TV Bandeirantes e pelo portal InfoEsporte.com

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